Zapeando contra a corrente

Matéria realizada para o Portal Geração Digital na aula de Edição em Jornalismo Impresso

Aos 78 anos, o aposentado Waldemar de Souza divide uma casa na Ilha do Governador com seis amantes. Algumas grandes, outras pequenas e a maioria meio gordinha. Ele deixa uma em cada cômodo para ter certeza que sempre terá alguma a seu dispor. Além das amantes, seu Waldemar também tem doze amigos que fazem da residência um lugar mais divertido. São tardes e noites inteiras dedicadas as companhias. 

 

Muito se engana quem pensa que seu Waldemar é uma pessoa festeira, pelo contrário: para ele, quanto mais tempo em casa melhor. As amantes são as seis televisões que ele insiste em manter para sua diversão, e os amigos são os aparelhos de vídeo cassete e DVD para gravar seus programas preferidos.

 – Esses aparelhos estão sumindo, então se um fica ruim já tenho outro para substituir. Se muitos não tivessem quebrado, com certeza eu teria mais – lembra o aposentado.

 

Em tempos de mudança, seu Waldemar prefere permanecer com os velhos hábitos. Ele acorda todos os dias às 6h e liga o rádio enquanto faz o café da manhã.  Depois, lê um ou dois jornais e se arruma para sair. Quando volta, já à tarde, liga a televisão para almoçar e fica zapeando pelos canais o dia inteiro. Quando vai se deitar, lê cinco páginas de cada livro que está lendo – no momento, são três. 

 

Mas de todas as manias de seu Waldemar, a que ele não consegue parar é a de assistir, e gravar, os programas da televisão. São centenas de fitas cassete distribuídas em armários, cômodas e prateleiras. Isso porque ele não quer aprender a manusear os decodificadores digitais das operadoras de TV a cabo.

– Eu gravo pra ver quando a televisão estiver chata e não tiver nada pra assistir. Mas tem tanta coisa que eu não consigo mais me organizar, nem sei mais se vou ver depois. Isso que eu tenho é um acervo, tem de tudo!

 

E “tudo” não é um exagero, a variedade é enorme. Milhares de filmes, dezenas de novelas, várias edições do Fantástico, Esquenta e Melhores do Ano do Faustão, séries infantis como Sítio do Pica-Pau Amarelo e todos os programas humorísticos da Rede Globo estão guardados em sua coleção. Hoje, além dos canais da TV aberta, sua maior diversão é passar horas assistindo aos programas da Escolinha do Professor Raimundo, reprisados pelo canal Viva.

– A Escolinha me leva a um momento de escola, me lembra de uma turma cheia de problemas e pessoas diferentes. O Chico Anysio foi um tremendo humorista, o professor Raimundo ensina muito e fico satisfeito de ver que, quem pode assistir, também aprende.

 

Viúvo, com os filhos no trabalho e os netos estudando, seu Waldemar passa a maior parte do tempo sozinho. No entanto, esse amor pela TV não surgiu com a solidão, ele nasceu junto do próprio aparelho. O problema, na época, era a falta de dinheiro.

 – Televisão a gente começa a gostar quando começa a ver. A minha família não tinha TV. Só as pessoas que tinham condições financeiras tinham um aparelho em casa. Então nós íamos para casa de quem tinha para assistir às novelas. Às vezes a gente nem queria ver aquele programa, mas não podia mudar porque a TV não era nossa – observa.  

 

O aparelho próprio só veio anos depois, como um presente do sogro. Depois, quando as televisões ficaram baratas e diversificadas, a facilidade para comprar cada vez mais peças para a casa aumentou. Waldemar relembra que o humorístico Balança Mas Não Cai era um dos programas que ele nunca deixava de ver.

– Também tinha uma novela que os atores dos teatros só começavam a trabalhar depois que ela acabava, porque as pessoas estavam em casa presas pela história. É interessante esse comportamento – brinca o aposentado.

 

Para ele, a televisão chegou com a intenção de substituir não só os aparelhos de rádio, mas também o cinema. Com séries semanais, o cinema oferecia aquilo que a novela também se propôs a fazer: colocar o protagonista em situações complicadas no fim dos episódios, para que os espectadores só descobrissem o desfecho caso assistissem ao próximo capítulo. A televisão, no entanto, possuía duas vantagens: além de ser de graça – a pessoa pagava apenas pelo aparelho e não por cada programa –, a facilidade de ser dentro de casa ajudou aqueles que tinham preguiça para sair do conforto do lar.

 

Com relação ao rádio, Waldemar não o abandonou completamente. Porém, prefere assistir na TV por causa das imagens, coisa que, apenas escutando, ele teria que imaginar.

– Eu gosto dos dois. Pela manhã escuto o rádio e à tarde vejo a televisão. A TV vai me mostrar àquilo que o rádio já falou, mas com as imagens. Assim é muito mais fácil ter ideia do que realmente aconteceu.

 

Mas como em todo relacionamento, nem tudo é perfeito. O aposentado reclama que a companheira tem uma comunicação de via direta, não dando uma interação ao espectador e o deixando impotente. Ele adoraria poder interferir e se comunicar com os apresentadores da televisão para poder dar sua opinião sobre os assuntos tratados, assim como faz na rádio.

 

Nos dias atuais, essa amizade com a televisão pode parecer nostálgica para muitas pessoas, mas incomoda quem vive ao redor de seu Waldemar. Muitas vezes, são vários aparelhos ligados ao mesmo tempo no volume máximo, o que dificulta qualquer conversa dentro da casa. Além disso, o acúmulo de produtos audiovisuais faz da residência um amontoamento de entulho, o que dificulta o trabalho da faxineira. 

 

Claudia Souza, filha de Waldemar, afirma que a bagunça não é o maior problema desse vício.

– O que mais me chateia é que ele desiste de ir aos lugares para gravar os programas. Já perdi a conta de quantas vezes o convidei para viajar comigo no fim de semana e ele disse que não iria porque perderia o Fantástico. Não é por falta de tentativa – reclama.

 

Até o próprio seu Waldemar entende que a reclamação não é sem motivo. Quase sempre ele prefere ficar em casa assistindo a programação de sempre. 

– Eu não gosto de viajar porque a TV me mostra tudo, eu conheço países que não poderia ir, fico entusiasmado. Quando eu preciso ir a algum lugar, deixo o programa gravando. Mas, se não tiver como, eu não vou.

 

Mesmo assim, Waldemar não passa o dia inteiro trancado em casa. O único momento o qual ele não está assistindo televisão é quando sai para passear. Às vezes vai ao cinema para assistir aos filmes de ação e terror que estão em cartaz, ou vai ao mercado tomar um cafezinho – um de seus programas preferidos. Ele também gosta de visitar seu passado e relembrar lugares onde passou os bons tempos de sua juventude. Isso também preocupa Claudia, que muitas vezes se desespera tentando encontrar o pai.

– Um dia ele resolve sair depois do almoço e só volta à noite dizendo que foi passar o dia em Bonsucesso. Acho ótimo quando ele sai de casa, mas custa atender o celular? 

 

Sem dúvida seu Waldemar é um homem muito ligado ao passado. Por mais que hoje tenha condições de pagar o que quiser, nunca fez questão de um smartphone, uma televisão de última geração ou fazer viagens ao redor do mundo. Ele prefere continuar da mesma maneira que passou a maior parte de sua vida: com simplicidade.

– O dinheiro é para ajudar a família. Eu tenho muita coisa, mas é tudo antigo, não preciso de nada novo se o que tenho funciona e me atende. Essas coisas de Netflix e Now seriam um desperdício pra mim, um dinheiro jogado fora – explica.

 

Enquanto o mundo busca freneticamente o avanço tecnológico, seu Waldemar está bem com o que tem. A própria televisão que gera discussões na família, também é responsável por aproximá-los. Todos os dias, a filha e a neta se juntam a ele para assistir pelo menos um pouquinho de TV e conversar sobre o dia. As duas tentam adaptar as rotinas para que ele nunca fique completamente sozinho. Hábitos como esse, que eram comuns no passado, são cada vez mais raros e esquecidos nos dias de hoje. Mas uma coisa é fato: a qualquer momento a conversa pode ser interrompida por uma notícia no Jornal Nacional.

– A gente pode parar agora? Queria ver essa reportagem, parece que morreu o ator que fez o James Bond – claro seu Waldemar, claro.

Pokémon, eu escolho você!

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Pokémon fez sua estreia na televisão no dia 1 de abril de 1997 no canal TV Tokyo e, até hoje, continua ganhando fãs de todas as idades. O desenho japonês, ou anime para os mais íntimos, começou como um jogo de batalha entre monstrinhos digitais, mas não demorou para o estúdio Oriental Light and Magic ver potencial para transformá-lo em série de TV.

Ao longo dos seus 20 anos, Pokémon encantou crianças ao criar um mundo onde humanos vivem em harmonia com bichinhos especiais de vários gêneros, como elétricos, aquáticos, psíquicos, entre outros. É difícil encontrar uma pessoa que não reconheça o nome Pikachu, seja ela uma criança de cinco anos ou um adulto de 50. Isso porque o desenho conta com 20 temporadas, 19 longas-metragens, revistas em quadrinhos e inúmeros jogos.

Em seus quase mil episódios, a história gira em torno do menino Ash Ketchum que, ao completar dez anos, começa uma jornada para realizar seu sonho: tornar-se um Mestre Pokémon. Para isso, ele viaja por várias regiões do Japão em busca de insígnias para poder batalhar na Liga. Durante seu caminho, Ash captura e coleciona os monstrinhos, faz novos amigos e luta contra a equipe Rocket – os vilões que sempre tentam atrapalhar seus planos.

O primeiro filme da série, Pokémon: o filme, foi lançado em 1998 e levou uma multidão às salas de cinema. O longa, que teve um orçamento de três milhões de dólares, arrecadou, ao redor do mundo, US$ 160 milhões a mais.

A ideia de colecionar os monstrinhos fascina tanto as crianças de hoje, como aquelas que cresceram e estão com seus vinte e poucos anos. A prova disso é o sucesso do jogo de celular Pokémon GO, lançado em julho de 2016. O aplicativo usa a câmera do smartphone para integrar os pokémons ao mundo real, permitindo que o jogador possa capturar, batalhar, e treinar as criaturas. Em seis meses, o game foi baixado mais de 500 milhões de vezes no mundo.

No Brasil, o anime foi transmitido em mais de dez canais de televisão. Hoje, o Cartoon Network, é o grande responsável por apresentar o mundo Pokémon às crianças. Mas, com projetos de novos filmes, jogos e temporadas, o desenho deve continuar conquistando novos espectadores por muito tempo. 

 

** Pokémon foi o desenho que mais me marcou – e continua marcando até hoje. Pokémon: o filme foi o primeiro filme que vi no cinema e lembro perfeitamente de chorar junto de todos os pokémons quando a batalha entre Mewtwo e o Mew transformou o Ash em pedra. O Ash foi o meu primeiro crush! (Sim, eu sei que ele é um desenho, mas isso era bem comum entre as meninas de 5-6 anos). O álbum de Pokémon foi o primeiro e único que eu completei. Eu tinha vários VHS e assistia compulsivamente alguns deles. Tinha bichinhos de pelúcia, coleções do Guaraná Caçulinha, e várias pokébolas espalhadas pelo meu quarto. O vício é tanto que, hoje, meu carro é amarelo, se chama Pikachu e tem uma pokébola pendurada no espelho. Ah! E claro que sou uma jogadora assídua de Pokémon GO, mesmo sabendo que todo mundo já parou de jogar. Os bichinhos eram mágicos, cara um tinha sua própria personalidade, eram tão bonitinhos e faziam sons que sempre tentava imitar. As batalhas eram emocionantes, eu ficava nervosa torcendo pelos heróis. Admito que também gostava da Equipe Rocket, eles eram muito atrapalhados e extremamente engraçados. Volta e meia me pego assistindo a vídeos sobre o desenho. No fundo, tudo em Pokémon me encanta. Sem dúvida é O programa da minha infância.  

Uma revolução que ainda não chegou

Matéria realizada para o Portal Geração Digital na aula de Edição em Jornalismo Impresso

Não é novidade que os meios de comunicação de massa recriam estereótipos construídos pela sociedade. Hoje, a tentativa de inserir personagens LGBT na televisão gera debates com relação ao nível real da representatividade nos produtos audiovisuais. Nesse caso, os estereótipos estão relacionados a comportamentos que o público espera da comunidade.

A autora Gloria Perez sempre trata de temas relevantes em suas novelas. Em A Força do Querer, a atriz Carol Duarte interpreta uma menina que irá passar por um processo de mudança de gênero. Além disso, o programa também irá destacar o personagem de Silvero Pereira, que será uma travesti.

No entanto, a questão da representatividade ainda está longe de ser perfeita. A drag e YouTuber Melissa L’Orange destaca que o principal problema da televisão é tratar o diferente como uma ocasião e não como algo do cotidiano.

​– Falta entender das coisas. Ter uma personagem transexual na novela, que vivesse como todas as outras personagens femininas. Que o papel dela não fosse exclusivamente o de falar sobre ser trans. Isso sim seria revolucionário.

A verdade é que ainda precisamos avançar muito para entender o que a comunidade LGBT tem a oferecer. Sem essa compreensão nunca poderemos enxergar o mundo com sua perspectiva. A televisão deveria ter o papel de questionar esses estereótipos e apresentar situações que afastam a realidade dos tradicionais papéis de gênero. Somente assim as diferenças poderão ser tratadas com igualdade e respeito.

As ciências por trás dos crimes

Matéria realizada para a Revista Forense na aula de Laboratório de Jornalismo Impresso

No dia 6 de janeiro de 2000, o programa CSI: Crime Scene Investigation levou a temática da perícia para a televisão e fez surgir, nos fãs, um espírito investigativo. A série aproximou as pessoas de assuntos que, antes, eram desconhecidos, como os estudos de vestígios deixados em locais de crime. Porém, são poucos os que se aprofundam e tentam compreender o real processo por trás do programa. 

A partir do momento em que o homem passou a viver em sociedade, surgiu uma necessidade de equilibrar os interesses – principalmente contraditórios – que transcorrem da vida em comunidade. Devido a essas divergências, foi criada a criminalística – recentemente, chamada de Ciências Forenses –, que muitas vezes envolve definições específicas nas áreas de Química, Medicina, Engenharia, entre diversas outras. 

No Brasil, a Constituição Federal define que a segurança pública é dever do Estado, garantindo a ordem pública e a integridade das pessoas e do patrimônio. Nesse contexto, a maioria dos conflitos de ordem criminal devem ser tratados com ajuda das Ciências Forenses. 

O personagem principal desse processo é o perito criminal. Utilizando-se de conhecimentos das Ciências Forenses, os profissionais realizam as análises científicas de vestígios de crimes que dão origem à provas materiais. No sistema de justiça brasileiro, as provas admitidas são testemunhais, documentais e materiais. A perita de documentos, Zenaide Dantas, explica que, “atualmente, cada vez mais a prova material vem ganhando importância, porque, quando corretamente identificada e analisada, é a que melhor possibilita a correta aplicação da lei”.

A criminalística se iniciou quando a Medicina começou a contribuir com a Justiça. No Império Romano, os governantes consultavam médicos para esclarecer as circunstâncias de determinadas mortes. Porém, somente no século XVI, surgiu a primeira lei que determinava a presença de técnicos para a análise dos vestígios criminais ligados à pessoa. 

Durante muitos anos, a Medicina foi a única que desenvolveu práticas para apurar a exata causa de uma morte e o uso dessas técnicas passou a ser conhecida como “Medicina Legal”. Entretanto, com a necessidade de atender outras demandas legais, novas especialidades foram agregadas, ampliando e diversificando os conhecimentos. Assim surgiu a criminalística.

Zenaide lista algumas das diferentes áreas que integram a criminalística: Balística, que visa compreender  a dinâmica de um disparo de arma de fogo em um corpo humano; Química, cujo objetivo é analisar substâncias tóxicas e entorpecentes; Biologia, que aplica o exame de DNA para a identificação humana; Documentoscopia, que examina fraudes em documentos; Engenharia Civil; que analisa situações de construções em casos de desabamentos; Engenharia Elétrica, que envolve o exame de furtos de energia; Engenharia Mecânica, cujo foco é a eficiência de equipamentos; Engenharia Ambiental, que estuda crimes contra o meio ambiente; Informática, que procura fraudes no meio digital; Crimes Contra a Vida, entre outras. 

Com o aprimoramento das Ciências Forenses nas diversas áreas das ciências naturais, a Justiça é auxiliada no atendimento das demandas, e, consequentemente, a sociedade se beneficia na obtenção de seus direitos.

Portanto, o CSI não é só na ficção. No Brasil, as perícias tiveram, e continuam tendo, uma grande expansão. A possibilidade de intercâmbio com polícias de outros países permite que os profissionais brasileiros tenham conhecimento de novas tecnologias, as quais se aproximam do que é visto no seriado de televisão. No entanto, a maior dificuldade enfrentada pela perícia no nosso país é a falta de recursos financeiros, pois tais tecnologias, geralmente, importadas, costumam ter preços elevados. Apesar desse obstáculo, o Brasil precisa continuar na busca da excelência da perícia para, assim, fazer com que a sociedade obtenha a justiça esperada. 

Quando a perícia genética entra em ação

Matéria realizada para a Revista Forense na aula de Laboratório de Jornalismo Impresso

Todos os dias somos bombardeados por notícias sobre assassinatos, desaparecimentos e violências sexuais em que, muitas vezes, são feitos exames de DNA para poder chegar a um culpado ou a uma possível vítima. Essa atividade pouco chama a atenção da mídia, porém, é crucial para concluir ocorrências complicadas, como os alarmantes casos de estupro coletivo. 

O IPPGF – Instituto de Pesquisa e Perícias em Genética Forense – é o órgão responsável pela análise de vestígios criminais, subordinado ao Departamento de Polícia Técnico-Científica da Policia Civil do estado do Rio de Janeiro. Ele é contatado em último caso, quando as outras formas de identificação de uma vítima, como impressão digital e arcada dentária, falharam. Seu trabalho começa após um familiar requerer um pedido de exame de DNA, em qualquer delegacia, quando ocorre um desaparecimento e existem chances dessa vítima ser a pessoa procurada. 

O Instituto faz um agendamento com os familiares – normalmente pai, mãe ou filhos – e colhe o material genético: a amostra de referência. A partir daí começa o trabalho de pesquisa com a prova questionada: vestígios encaminhados pelo Instituto Médico Legal. Esses materiais são limpos, cortados e pulverizados para serem analisados pelos peritos criminais.

Após a pulverização, começa a etapa de extração do DNA. É colocada uma enzima na amostra para romper as membranas das células e liberar o material genético. Essa parte representa uma limpeza com o objetivo de só restar o DNA ao final do procedimento. Porém, após o DNA estar separado, é necessário saber qual a sua qualidade, e isso é descoberto na fase de quantificação. Se a qualidade for muito baixa, todo o processo é recomeçado.

Com a qualidade da amostra determinada, o perito que está comandando o caso seleciona as regiões do DNA que irá avaliar e as multiplica para ter maior visão do resultado. Os dados são coletados e analisados por um software de computador que os transforma em dados numéricos para que o perfil genético da amostra questionada possa ser comparado com o perfil da amostra de referência. Assim, o caso pode ser concluído.

Durante os protestos de 2013, o “Caso Amarildo”, um ajudante de pedreiro que foi torturado e morto por policiais militares da UPP da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, chamou a atenção do país. Porém, com a ausência do corpo da vítima e, consequentemente, a falta de outras provas, a perícia genética da cidade foi acionada; no entanto o caso foi arquivado sem conclusão.

A chefe do laboratório, Sandra Fernandes, explicou que o material coletado pelo perito examinador do local de crime foi encaminhado para o IPPGF, porém nenhum resultado foi encontrado. “No final, foram analisados mais de noventa vestígios, um número muito acima do normal, mas nada foi útil para as investigações”. 

Os investigadores se preocupavam com a demora para a obtenção de materiais devido a degradação pelo tempo, o que aumentava as dificuldades de conseguir resultados conclusivos. Além disso, com os noventa vestígios analisados, os gastos que envolviam as pesquisas laboratoriais cresceram de uma maneira nunca imaginada pelo órgão público. “Isso não é normal, foram usados vários kits e cada um é caríssimo. Um kit de cem amostras era na média de nove mil reais.” 

Hoje, o Instituto de Perícias Genéticas tem sido essencial para casos de violências sexuais, permitindo a indicação de culpados e a eliminação de suspeitos. Além disso, continua seu trabalho nas análises de situações mais simples, buscando diminuir a dor de mães e familiares que, diariamente, procuram por seus entes desaparecidos. Apesar de pouco divulgado, este trabalho complementa as investigações da polícia na resolução dos casos que, aparentemente, não deixam provas.

O que é a Documentoscopia?

Matéria realizada para a Revista Forense na aula de Laboratório de Jornalismo Impresso

A Documentoscopia é uma área da criminalística, que tem como objetivo analisar documentos e manuscritos para verificar a autenticidade ou falsidade, além da existência de adulterações para, assim, determinar a natureza, de que forma foi feita e a autoria do crime. A área pertence à Polícia Civil e pode agir internamente – em um laboratório – ou, externamente – em apoio ao Juizado Especial Criminal (Jecrim). Neste último caso, os peritos estão mais focados na análise de ingressos e credenciais de eventos, como Copa do Mundo, Sambódromo, Olimpíadas, Rock in Rio, entre outros.

A chefe do Serviço de Perícias de Documentos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, do Departamento Geral de Polícia Técnico- Científica da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro, Claudia Ferreira, explica o funcionamento da área.

 

Repórter: Como começa um processo de perícia de documentos?

Claudia: A perícia de documentos é feita no laboratório, é um exame interno, diferente da perícia de crimes contra a vida, que é feita externamente. O material referente ao exame de documentos – seja autêntico ou falso – é encaminhado ao laboratório de perícias pra ser submetido ao teste analítico. O perito, então, verifica todo o documento de uma forma geral (o aspecto, conservação, integridade) e, posteriormente, passa a análise de acordo com o solicitado nos quesitos formulados pela autoridade policial, judicial ou do Ministério Público. 

 

R: Como são feitos os exames da documentoscopia?

C: Inicialmente são feitos a olho nu, verificando manchas, existência de grampos, dimensões e medidas do documento, rasgos, ação de insetos,  água ou outro solvente. Analisa-se também, se o documento se trata de uma impressão colorida à jato de tinta ou laser, ou se é um original. Depois desse teste visual, ele é submetido aos equipamentos ópticos especializados como: estereoscópio, lupas de variados aumentos e o comparador espectral de vídeo. As análises nesses equipamentos vão mostrar se o documento sofreu algum tipo de alteração, nas tintas de impressão, ou ainda, se sofreu alteração nos manuscritos. Constatada a natureza da alteração, o perito vai descrever a forma como ela ocorreu no documento. As análises de documentos e dos manuscritos têm como metodologia o confronto direto entre as peças questionadas e padrões conhecidos. 

 

R: Qual o aparelho mais importante para a perícia?

C: O comprador espectral de vídeo. É um equipamento que tem múltiplas funções. Ele amplia e faz análises ópticas utilizando diferentes filtros do espectro de luz, tanto na região do infravermelho, quando na região do ultravioleta e também na região do visível aos olhos. Com esses testes, são permitidas as análises de diversos tipos de fraudes. Como lavagem química, obliterações (rasura), substituições, acréscimos, raspados, entre outros. Ele tem uma câmera e as imagens podem ser fotografadas e guardadas em um arquivo para serem utilizadas em um laudo policial. 

 

R: Em que situações cabem a perícia? 

C: A perícia é requerida quando alguém questiona a autenticidade de uma assinatura ou de um documento. Esse questionamento pode ser feito tanto na área criminal quando nas áreas cível, trabalhista, empresarial e de família – ou seja, todas as áreas do Direito. Os documentos questionados serão submetidos a perícia. A área criminal visa punir criminalmente os autores do delito, é de natureza pública. Já as solicitações que partem das outras áreas, visam recuperar patrimônio, buscar indenização, restituir direitos individuais, entre outros. Portanto, são de natureza privada. 

 

R: Quem a requisita?

C: Na área criminal, a autoridade policial e judicial e o Ministério Público. Nas demais áreas, a requisição é feita pela parte interessada para deferimento do juiz de direito. Quando a ação envolve a segurança pública, que é dever do Estado, as autoridades responsáveis são obrigadas a apurar o delito. Quando o interesse é particular, quem movimenta a máquina judicial é o próprio interessado, através de seu advogado.

 

R: Tem algum exemplo de caso de repercussão?

C: Em 2011, quando houve a tomada do Complexo do Alemão para a implantação da primeira UPP do Rio de Janeiro, foram apreendidos diversos produtos de crime, como drogas, armas, munição, carros roubados, cadernos de tráfico e papéis com inscrições diversas. O conteúdo desses escritos indicavam ordens de um líder aos seus subordinados. Os comandos eram para que houvessem sequestros de autoridades, assassinatos, desordem pública com queima de ônibus, compra de armamentos e munição, venda de drogas, entre outros. A partir do conteúdo dos bilhetes, a investigação se voltou para um líder do Comando Vermelho que já estava preso: Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira Mar. Alguns desses materiais foram para a análise grafotécnica – exames de manuscritos. A autoridade policial encaminhou padrões gráficos do suspeito e as peças questionadas foram submetidas ao comparador espectral de vídeo para serem ampliadas, porque os escritos eram microscópicos. A comparação entre os padrões e os questionados resultou na constatação de numerosas e significativas convergências gráficas levando a conclusão de que o autor das mensagens era mesmo Beira Mar. E, por fim, a investigação concluiu que esses papéis saiam do presídio de segurança máxima onde ele se encontrava através de pessoas que o visitavam e chegava ao Complexo do Alemão. 

Muito longe de Breaking Bad

Matéria realizada para a Revista Forense na aula de Laboratório de Jornalismo Impresso

Há anos, os médicos legistas já têm suas funções definidas nas investigações criminais exercidas pelo Estado. Entretanto, com o passar do tempo, eles precisaram aumentar o campo de atuação através de laboratórios de polícia. 

No Brasil, a Química foi uma das primeiras especialidades, depois da Medicina, a ser requisitada pela apuração criminal. Inicialmente, a área se encarregava apenas pela identificação de agentes tóxicos e, posteriormente, se diversificou dentro da Criminalística. Hoje, o setor mantém posição de destaque e se denomina Química Forense.

O responsável pelo Serviço de Perícias de Química do Rio de Janeiro,  Marco Martins, explica que “a importância desse ramo da Criminalística fica evidente no levantamento pericial em locais de crime, ao fornecer técnicas de revelação de vestígios ocultos, como impressões digitais em papel”. A atuação do perito pode durar várias fases do processo de investigação cientifica, através da realização de exames de laboratório.

Dessa forma, de acordo com Martins, a Química Forense pode ser definida como a esfera da Criminalística responsável pela análise, classificação e identificação de elementos ou substâncias químicas encontradas nos locais de ocorrência de um delito. A utilização de técnicas analíticas aplicadas a identificação ou constatação de substâncias tem contribuído para o auxílio da justiça. Através da utilização de modernos equipamentos e instrumentais, os peritos dessa área podem analisar e detectar quantidades mínimas de materiais, mesmo quando presentes em misturas.

O leque de exames realizados pela Química Forense envolve análise de drogas lícitas, como medicamentos que interferem no Sistema Nervoso Central, utilizados de forma irregular; drogas ilícitas; venenos; alimentos adulterados e impróprios para consumo; fluidos orgânicos – como sêmen, sangue, urina e outros –; combustível, entre outros.

Os exames de drogas ilícitas, principalmente maconha e cocaína, são os responsáveis pelo maior número de atendimentos periciais na área da Química Forense, em todos os estados brasileiros, devido ao alto índice de consumo destas drogas. A facilidade nas técnicas de extração, purificação e concentração dos princípios ativos permitem uma maior oferta dessas substâncias na sociedade, as quais são misturadas a outros elementos, para serem vendidos a baixo preço. 

Martins ressalta, que, as novas técnicas de síntese orgânica permitiram o desenvolvimento de novas drogas, com efeitos alucinógenos, que não são utilizadas somente para fins medicinais.

Portanto, assim como todas as áreas da perícia, os investigadores da Química Forense, ao desvendar as circunstâncias de um crime, fazem um trabalho de grande importância: de um lado, protegem a população da ação de criminosos e de outro, impedem que inocentes sejam punidos injustamente.

Que tiro foi esse?

Matéria realizada para a Revista Forense na aula de Laboratório de Jornalismo Impresso

Um rapaz, brasileiro residente na Suíça e antigo morador do Morro do Borel, no Rio de Janeiro, veio ao Brasil para regularizar alguns documentos quando, enquanto transitava na comunidade, foi atingido por um tiro. A mídia divulgou que a responsabilidade do ato provavelmente era da Polícia Militar carioca e, assim, a Balística foi acionada. 

“A Balística Forense é o ramo da criminalística que estuda vestígios e indícios relacionados a utilização de armas de fogo e munições”, define a perita Rosicléa Marques, ex-chefe do Serviços de Perícias de Armas de Fogo do Rio de Janeiro. A área se especializa desde a identificação à investigação para entender o funcionamento e os efeitos sobre o alvo, assim como no próprio atirador. Quando um ser humano é ferido, o estudo é realizado pelo Perito Médico Legista, que estuda as lesões traumáticas – nos vivos –, ou o efeito letal, o trajeto da bala e as características do ferimento – em cadáveres. Porém, caso seja um objeto atingido, quem faz a analise é o Perito Criminal. “É muito importante integrar as duas perícias”, explica Rosicléa, “porque assim é possível determinar as circunstâncias do evento”. 

Os exames da Balística são requisitados pela Autoridade Policial da delegacia ou pelos encarregados do Inquérito Policial Militar, para sanar dúvidas sobre os crimes e elaborar quesitos pertinentes ao fato de delito. Os operadores do Direito – advogados, membros do Ministério Público e da Defensoria Pública – podem também solicitar ao juiz a elaboração de laudos, bem como algum exame complementar. 

No caso do jovem do Morro do Borel, as armas pertencentes à PM do Rio foram arrecadadas e enviadas ao Serviço de Balística. O processo de perícia inicia-se com um exame minucioso dos aspectos dos instrumentos que, após a apreensão, é enviado da delegacia ao perito. A primeira análise compreende características macroscópica do material, tais como: tipo, marca, fabricante, país de fabricação, calibre, número de série, números secundários, acabamento do material, e outras que o perito entender como relevantes.

Já a segunda análise, compreende o exame de Confronto Balístico, que compara o projetil retirado de um cadáver, corpo ferido ou local de crime, e a arma de fogo suspeita. Os exames são realizados pelo perito especializado que examina e descreve o material, verifica a eficácia da arma de fogo ou da munição e realiza exames metalográficos – que recupera as gravações que foram suprimidas da superfície metálica da arma. Rosicléa explica que, após esse minucioso exame, o perito elabora um documento conhecido como Laudo Pericial, que faz parte de um conjunto de provas para auxiliar a análise do juiz diante do fato criminoso.

Para a perícia, a conclusão do caso deu-se após o exame de Confronto Balístico constatar que o projetil realmente tinha sido disparado por uma arma da PM carioca. Porém, como existem outros fatores que podem mudar o futuro da ocorrência, o processo criminal contra os policiais acusados ainda não está terminado. “Nós fazemos a perícia mas não julgamos. Ter a prova técnica não significa o fim do caso, muitas vezes bons advogados conseguem derrubar nosso trabalho”, conclui a perita.